Não acredite nas promessas porque não há promessas que eu cumpra,
E meu reflexo me inquieta, assim aqui vou eu.
Não estou pedindo uma segunda chance,
Estou gritando com toda minha voz
Me dê razão mas não me dê escolha.
Se não eu vou cometer o mesmo erro.
Não estou pedindo uma segunda chance,
Estou gritando com toda minha voz
Me dê razão mas não me dê escolha.
Senão eu vou cometer o mesmo erro outra vez.
***Do Livro Ame e De Vexame***
Custou-me muita dor, solidão e desespero aprender que sentir amor é uma potencialidade vital minha, é produção criativa da pessoa que sou e, para amar, dependo apenas de mim mesmo. E sua expressão e comunicação são produtos da liberdade pessoal e social conquistada.
Em minha inocência e ignorância, eu atribuía a algumas pessoas o poder de liberar, produzir, fazer exercer-se e se comunicar o amor em mim e de mim. Esse amor pertencia, pois, exclusivamente a essas pessoas, ficando eu delas dependente para sempre. Se, por alguma razão, me deixassem ou não quisessem mais produzi-lo em mim, eu secava de amor e — o que é pior — ficava em seu lugar, na pessoa e no corpo, uma sangrenta ferida, como a de uma amputação, que não cicatrizaria jamais.
Certamente foi isso o que fez Shakespeare levar Romeu e Julieta à morte, bem como Goethe fazer Werther se matar e, em conseqüência, muitos de seus leitores tentar suicídio. Não tenho a menor dúvida de ter convencido meus personagens Cléo e Daniel a optar pelo suicídio quando lhes provei ser impossível o amor total na sociedade burguesa.
Entretanto, algo em mim, já naquela época, fazia-me duvidar dessa tese, pois, após tomar o medicamento que iria matá-los, tentam o amor pela última vez. Para sua grande surpresa, o amor volta inteiro, completo. Libertando-se, através do suicídio, da vida social burguesa, redescobrem o sentimento essencial. O seu amor estava lá, neles e entre eles, pronto e todo, intocado. Começam a pedir socorro, pois não querem mais livrar-se da vida. Porém, estavam nus, batendo nas portas dos apartamentos. Em lugar de chamar a ambulância (eles só diziam a palavra amor), os moradores do prédio pedem a ajuda da polícia. Cléo e Daniel morrem na delegacia.
Liberdade é como o camino no poema de Antonio Machado:
Caminante no hay camino, se hace camino al andar.
De amor em amor. De vexame em vexame.


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